Por: Maria Alice Domingues
A falta de enfermeiros especializados é hoje um dos principais desafios da saúde global. Estimativas internacionais apontam um déficit entre 5,9 e 6 milhões de profissionais, quadro que afeta diretamente áreas de alta complexidade, como a reprodução humana e a fertilização in vitro (FIV). Nesse contexto, a carência de profissionais qualificados compromete não apenas a parte técnica dos tratamentos, mas também o apoio emocional oferecido aos pacientes.
Especialista em Reprodução Humana Assistida, Suelen Camara Baptista atua há anos em protocolos avançados de enfermagem voltados à melhoria dos resultados da FIV. Formada em Enfermagem pela Universidade Federal Fluminense, com pós graduação em Enfermagem do Trabalho pela Uninter e título de mérito acadêmico pela Faculdade do Maranhão, a profissional construiu sua trajetória com foco na segurança do paciente e na humanização do cuidado. Atualmente, vive nos Estados Unidos, onde segue se aprimorando e publicando artigos científicos na área.
Segundo Suelen, o papel da enfermagem é central na coordenação dos ciclos de FIV, no manejo da estimulação ovariana e no acompanhamento clínico dos pacientes. “A enfermagem é a base operacional da reprodução assistida, sem ela o tratamento perde eficiência e organização”, afirma. A escassez desses profissionais gera sobrecarga nas equipes, aumento do risco de falhas e redução da qualidade do atendimento.
Os impactos também aparecem nos resultados clínicos. A falta de especialistas pode provocar atrasos ou até cancelamentos de ciclos de tratamento, além de reduzir as taxas de sucesso. “Quando há poucos profissionais experientes, o acompanhamento fica fragmentado e isso pode interferir diretamente nas chances de gravidez”, explica Suelen. Outro efeito importante é a perda do suporte emocional oferecido aos pacientes, que enfrentam um processo longo e, muitas vezes, frustrante. “O enfermeiro é quem está mais próximo do casal durante o tratamento, orientando, acalmando e garantindo que cada etapa seja seguida corretamente”, destaca.
Entre as principais causas da escassez estão as condições de trabalho difíceis, jornadas extensas, salários pouco atrativos e os impactos prolongados da pandemia de Covid 19. Soma se a isso o envelhecimento da força de trabalho, especialmente em países desenvolvidos, e a alta complexidade da área de reprodução humana, que exige formação específica ainda pouco difundida. “A medicina reprodutiva evolui rápido, mas a formação de profissionais não acompanha o mesmo ritmo”, avalia Suelen.
O cenário global também revela desigualdades. Cerca de 78 por cento dos enfermeiros estão concentrados em países que representam menos da metade da população mundial. Ao mesmo tempo, o mercado de serviços de fertilidade segue em expansão, o que aumenta a demanda por profissionais especializados. Relatórios da Organização Mundial da Saúde indicam que investir na formação e na permanência desses trabalhadores é fundamental para garantir o futuro da assistência.
Para enfrentar a crise, Suelen defende medidas estruturais. “É preciso criar diretrizes mais claras para a enfermagem em reprodução humana, valorizar financeiramente esses profissionais e investir em educação continuada”, afirma. Ela também destaca a importância de ambientes de trabalho mais saudáveis e de políticas públicas voltadas à retenção de talentos. “Sem enfermeiros preparados, não há tecnologia que resolva sozinha o problema da infertilidade”, conclui.





