Trauma invisível: Brasil corre contra o tempo para formar profissionais preparados para lidar com feridas emocionais

Neurocientista, Telma Abrahão, explica por que escolas e consultórios precisam adotar uma abordagem “trauma informed” com urgência

 

O Brasil enfrenta uma crise silenciosa: milhões de pessoas convivem diariamente com os impactos de traumas vividos na infância e ao longo da vida, muitas vezes sem sequer perceber a origem de seus sintomas emocionais, comportamentais e físicos. Ansiedade, depressão, dificuldade de concentração, explosões emocionais, doenças psicossomáticas e conflitos interpessoais são apenas alguns reflexos desse histórico.

Segundo a neurocientista e especialista em desenvolvimento infantil, Telma Abrahão, o problema vai muito além da saúde mental. “O trauma não tratado deixa marcas profundas no sistema nervoso e influencia a forma como a pessoa aprende, se relaciona e adoece. Muitas vezes, o adulto não lembra do evento traumático, mas o corpo e o cérebro continuam reagindo como se o perigo ainda existisse”, explica.

Nesse cenário, cresce de forma acelerada a necessidade de profissionais “trauma informed”, ou seja, profissionais capacitados para compreender como experiências traumáticas moldam o cérebro, o comportamento e a saúde ao longo da vida.

Ser trauma informed vai além da empatia. Trata-se de compreender cientificamente como o trauma altera o sistema nervoso, os padrões de apego, a regulação emocional e até o funcionamento do corpo. Profissionais com essa formação aprendem a:

 

• Identificar sinais de trauma oculto

• Evitar práticas que reativam gatilhos emocionais

• Criar ambientes seguros emocionalmente

• Trabalhar com autorregulação e corregulação

• Intervir de forma preventiva, não apenas corretiva

 

“Ao contrário do que se acredita, não é falta de limite ou de esforço. Em muitos casos, é um cérebro em estado de sobrevivência. Quando o profissional entende isso, a intervenção muda completamente”, destaca Telma Abrahão.

A abordagem é baseada em evidências científicas da neurociência, psicologia do desenvolvimento e psiconeuroimunologia. Dados do IBGE indicam que mais de 30% das crianças brasileiras vivem em contextos de vulnerabilidade social. Violência doméstica, negligência emocional, abandono, bullying e insegurança alimentar fazem parte da realidade de muitos alunos.

 

Estudos internacionais mostram que crianças com múltiplas Experiências Adversas na Infância (ACEs) têm maior risco de:

• Dificuldades de aprendizagem

• Problemas de comportamento

• Evasão escolar

• Transtornos emocionais na adolescência

 

Para Telma Abrahão, a escola ocupa um papel estratégico nessa transformação. “Professores trauma informed conseguem diferenciar indisciplina de desregulação emocional. Isso muda a forma de ensinar, de acolher e de prevenir o adoecimento emocional desde cedo”, afirma. Professores e gestores escolares trauma informed conseguem diferenciar indisciplina de desregulação emocional, criando estratégias pedagógicas mais eficazes e humanas.

O livro “When the Body Says No”, do médico Gabor Maté, mostra como traumas não resolvidos estão associados a doenças autoimunes, dores crônicas, hipertensão e até câncer. Profissionais da saúde que não consideram o histórico emocional do paciente acabam tratando apenas sintomas, não a raiz do problema. Uma abordagem trauma informed amplia o olhar clínico e melhora a adesão ao tratamento. “O corpo fala aquilo que muitas vezes a mente não conseguiu elaborar. Ignorar isso é perder uma parte essencial do diagnóstico”, ressalta a neurocientista.

Enquanto países como Estados Unidos, Canadá e Austrália já implementam políticas públicas trauma informed em escolas, hospitais e instituições sociais, o Brasil ainda caminha lentamente nessa direção. Formar profissionais capacitados para compreender trauma não é luxo, é necessidade social, educacional e econômica.

By Saudável Todo Dia

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