Prescrição digital no Brasil: maturidade regulatória, potencial de mercado e os próximos passos

A prescrição digital tornou-se um exemplo evidente da transformação estrutural pela qual a saúde vem passando. Não se trata apenas de substituir o papel pelo digital, mas de redefinir fluxos, responsabilidades, rastreabilidade e governança em um dos momentos mais críticos da tomada de decisão – a conduta médica -, e um dos elos mais sensíveis do cuidado – o acesso ao tratamento. Sob essa ótica, o Brasil traz um case interessante a ser observado, uma vez que o país consolidou em tempo relativamente curto um ecossistema regulado e escalável que já serve de alicerce para essa nova economia da saúde e tem demonstrado avanços importantes. 

É importante reconhecer que não somos um caso isolado, tampouco o mais radicalmente digitalizado. Países como Estônia e Finlândia operam sistemas praticamente universais de prescrição digital, com eliminação quase total do papel e forte integração nacional desde 2019, segundo dados da Comissão Europeia. O Brasil, por sua vez, já dispõe de infraestrutura de certificação, segurança e regulamentação claras desde 2020, mas ainda mantém um modelo híbrido: a receita em papel continua válida e a adoção digital não é obrigatória e a maturidade tecnológica varia entre regiões. 

Os números ajudam a dimensionar o momento atual. Segundo estimativa interna da Memed, apenas cerca de 15% das prescrições médicas no país são realizadas de forma digital. Trata-se, portanto, de um mercado ainda em construção. Ao mesmo tempo, estima-se que a prescrição digital cresce entre 30% e 35% ao ano, em um ritmo consistente que sinaliza mudança estrutural em curso.  

A tendência é de adoção gradual e a principal barreira não parece ser estritamente tecnológica, afinal, os requisitos já foram cumpridos. A resistência é, em parte, cultural, especialmente entre profissionais habituados ao modelo tradicional em papel, mas também social e estrutural. O acesso à conectividade, a dispositivos adequados e à capacitação digital ainda não é homogêneo no país. Não por acaso a pesquisa TIC 2025 aponta que enquanto 85% da população brasileira já está conectada à internet, apenas 20% estão na faixa mais alta com qualidade de acesso da conectividade significativa. 

O potencial de mercado decorrente dessa infraestrutura é expressivo. Segundo dados da Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), o varejo farmacêutico brasileiro alcançou R$ 240,97 bilhões em faturamento nos últimos 12 meses, com crescimento de 10,88% na comparação anual. Em um ambiente dessa magnitude, a digitalização da receita impacta diretamente a redução de fraudes, o controle de medicamentos sujeitos a vigilância especial e a eficiência logística.  

Além disso, a prescrição digital é o alicerce para a adoção de evidências de mundo real. Ao gerar dados estruturados em tempo real, a digitalização permite uma análise granular da jornada do paciente que as pesquisas clínicas tradicionais não conseguem capturar. Esse fluxo contínuo de informações fomenta uma colaboração sem precedentes entre governos, academia e indústria farmacêutica, otimizando desde a gestão de estoques públicos até o desenvolvimento de terapias personalizadas e políticas de farmacovigilância mais ágeis. Um caso emblemático dessa agilidade é o Estudo RECOVERY, liderado pela Universidade de Oxford. Utilizando a infraestrutura de dados digitais do sistema de saúde britânico (NHS), os pesquisadores conseguiram identificar que a Dexametasona reduz a mortalidade por COVID-19 em apenas 100 dias após o início dos testes — um feito que, em moldes analógicos e fragmentados, levaria anos. 

Outro aspecto central é o impacto potencial na equidade. A tecnologia contribui para reduzir as desigualdades já existentes no sistema de saúde. Quando bem utilizada, a prescrição digital permite que o médico amplie seu alcance, multiplicando o cuidado sem necessariamente aumentar sua carga de trabalho. Em um país marcado pela distribuição desigual de profissionais e por dificuldades de acesso em regiões remotas, essa capacidade de escala torna-se particularmente relevante.  

Esses avanços todos não significam que o trabalho esteja concluído, pelo contrário. Se o primeiro ciclo foi de estruturação regulatória, o próximo será de maturidade sistêmica. Interoperabilidade plena entre sistemas, integração estruturada com prontuários eletrônicos, padronização de dados clínicos e fortalecimento da governança à luz da legislação de proteção de dados serão determinantes para que o potencial econômico e assistencial se concretize. Também será fundamental enfrentar a barreira cultural de adoção, com capacitação, incentivo e demonstração clara de ganhos clínicos e operacionais. 

O Brasil ainda não universalizou o modelo, mas já construiu bases regulatórias e de mercado suficientes para dar o próximo salto. O que determinará nossa posição nos próximos anos não será apenas o avanço da tecnologia, mas a capacidade de integrar dados, ampliar o acesso e transformar digitalização em inteligência sistêmica. É nesse ponto que se definirá se a prescrição digital será apenas uma modernização de processo ou um verdadeiro vetor de transformação da saúde brasileira. 

*Fábio Tabalipa, Diretor Médico e Head de dados da Memed 

Janaina Leme
11 5091-7838
[email protected]
www.singcomunica.com.br
By Saudável Todo Dia

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Posts