Por Ana Maria Andrade**
O câncer de colo do útero (CCU) simboliza, simultaneamente, a desigualdade em saúde e uma das maiores oportunidades de mobilização global por sua eliminação. Embora seja uma doença amplamente prevenível e curável quando detectada precocemente, permanece como uma das principais causas de morte por câncer entre mulheres, especialmente em países de baixa e média renda.
A distribuição global da incidência e mortalidade do CCU reflete, de forma contundente, as disparidades de acesso a serviços de saúde, educação, recursos econômicos e políticas públicas eficazes. Mais de 85% dos casos e mortes ocorrem em países pobres, atingindo principalmente mulheres jovens, com baixa escolaridade e residentes em áreas rurais ou periféricas.
Desde 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) lançou sua Estratégia Global para Acelerar a Eliminação do Câncer de Colo do Útero, o mundo conta com um roteiro claro: vacinar 90% das meninas até os 15 anos, examinar 70% das mulheres com testes de alta precisão e tratar 90% daquelas com doença cervical ou lesões precursoras até 2030.
A concepção e o lançamento dessa estratégia contaram com mais de dois anos de trabalho conjunto entre a OMS e a União Internacional para o Controle do Câncer (UICC), culminando em um marco de governança global em saúde pública em 2020. Desde então, esse marco é celebrado em 17 de novembro, data instituída como o Dia de Ação pela Eliminação do Câncer de Colo do Útero — um lembrete anual de que o compromisso precisa ser contínuo e traduzido em políticas nacionais robustas.
Os limites estão bem definidos: quando todos os países atingirem uma taxa anual de incidência inferior a 4 casos por 100 mil mulheres, o câncer de colo do útero deixará de ser considerado um problema de saúde pública. Segundo projeções publicadas na The Lancet, o cumprimento das metas 90-70-90 poderá evitar 300 mil mortes até 2030, reduzir em 42% as taxas de incidência global até 2045 e prevenir mais de 74 milhões de casos até o fim do século. Isso representaria a preservação de 62 milhões de vidas femininas até 2120 — um impacto epidemiológico raro e sem precedentes na história do controle do câncer.
O desafio brasileiro: avanços e lacunas
O Brasil tem avançado de forma relevante no componente de imunização, vital para interromper a cadeia de transmissão dos tipos oncogênicos do HPV. Dados oficiais indicam que, desde 2024, o país mantém cobertura superior a 82% entre meninas de 9 a 14 anos e cerca de 67% entre meninos. São índices acima da média global, refletindo o papel estruturante do Programa Nacional de Imunizações (PNI) na oferta equitativa e gratuita da vacina.
Exemplo desse avanço pode ser mensurado pelo projeto Atendimento Médico Especializado Itinerante (AMEI) em parceria com a Secretaria de Estado da Saúde do Piauí (SESAPI) e desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento do Nordeste (IDENE) para rastrear câncer de colo de útero, como também câncer de próstata e pele, no Piauí. De forma itinerante e contínua, o projeto realizado vem transformando o acesso à saúde especializada no estado. Em menos de seis meses, já foram realizados aproximadamente, 10 mil atendimentos de rastreamento de câncer de colo do útero, um resultado que reforça o impacto do diagnóstico precoce e a importância da descentralização da atenção especializada.
Ainda assim, a meta de 90% de cobertura para ambos os sexos permanece como horizonte de curto prazo. O Ministério da Saúde prorrogou até o primeiro semestre de 2026 as ações de “resgate vacinal” entre adolescentes de 15 a 19 anos, reconhecendo que o reforço dessa faixa etária é essencial para consolidar a imunidade populacional almejada.
No entanto, o cenário de incidência ainda é preocupante. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima cerca de 17.010 novos casos anuais de câncer de colo do útero no triênio 2023–2025, o que o coloca entre os três tipos de câncer mais incidentes em mulheres — atrás apenas do câncer de mama e do colorretal (excluindo o de pele não melanoma). Esses números reiteram a necessidade de ampliar o segundo pilar da estratégia — a triagem com tecnologias de DNA-HPV — e de garantir acesso oportuno ao diagnóstico e tratamento.
Uma oportunidade histórica
A eliminação do câncer de colo do útero está, pela primeira vez, ao alcance de uma geração. A iniciativa liderada pela OMS e apoiada pela UICC oferece uma estrutura global, mas seu sucesso dependerá da capacidade de cada país de sustentar políticas preventivas, integrar cuidados e reduzir desigualdades.
O Brasil dispõe de um dos programas de imunização mais abrangentes do mundo e de uma rede de atenção oncológica capilarizada — ativos estratégicos que precisam ser reconhecidos e fortalecidos. Mantido o ritmo atual e com a consolidação das metas 90:70:90, o Brasil poderá não apenas salvar dezenas de milhares de vidas, mas também se tornar referência regional na eliminação do câncer de colo do útero como problema de saúde pública dentro da vida das jovens brasileiras de hoje.
Sobre a autora: **Ana Maria Andrade é médica ginecologista responsável técnica do projeto Atendimento Médico Especializado Itinerante (AMEI), a Saúde do Piauí (SESAPI) e desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento do Nordeste (IDENE).
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